Virtuosi: Marlos Nobre diz estar “carregado” de projetos (Jornal do Commercio)

Aos 72 anos, o  compositor pernambucano Marlos Nobre revela que está “carregado” de projetos musicais, entre eles, a criação de três óperas, e confessa estar prestes a colocar um ponto final na esperada Lampião, a sua primeira ópera que espera ver encenada, simultaneamente, em quatro capitais brasileiras. Marlos Nobre estará, hoje, no Teatro Santa Isabel, centro do Recife, para presenciar o lançamento, às 17h, do CD Poema, com toda a sua obra para violoncelo, o instrumento musical ao qual dedica maior devoção.

As 17 peças para celo foram gravadas por dois pernambucanos: o violoncelista Leonardo Altino tendo ao piano Ana Lúcia Altino, sua mãe. O CD será lançado durante o 14º Virtuosi, o festival de música erudita dirigido pelo maestro Rafael Altino, que vai até o próximo dia 18, sempre no Teatro Santa Isabel.

Sobre Leonardo Altino, Marlos Nobre não economiza elogios: “Meu grande intérprete, hoje, no violoncelo e o que melhor entendeu minha mensagem e minha maneira de sentir e escrever para ele, além de sua sensibilidade à flor da pele”, diz. O compositor anuncia que pretende compor “um grande concerto para violoncelo e orquestra” e que deseja que a estreia mundial seja feita por Leonardo Altino como solista.

O CD pode ser ouvido, com permissão para o download, no site www.virtuosi.com.br/poema/

Após o lançamento do CD, Marlos Nobre assistirá a apresentação ao vivo de seis faixas do CD com Leonardo Altino e Ana Lúcia Altino: Desafio II, Três Cantos de Iemanjá, Cantorio I, Cantilena II, Cantilena III e Poema III. Em seguida, às 18h, o Quinteto da Paraíba (cordas) apresentará recital com obras de Chico César, Sivuca, Capiba, Lenine, Jackson do Pandeiro, Guerra Peixe e Antonio Madureira. Às 20h, a apresentação da Orquestra Virtuosi e solistas sob a regência de Rafael Garcia, com peças de Christian Lindberg (trombone) e Antonio Vivaldi (concertos para cordas e cembalo).

Leia a seguir a entrevista na íntrega concedida por Marlos Nobre, via e-mail, ao Jornal do Commercio:

Jornal do Commercio – O que representa na sua vasta obra a gravação de Poema, CD com obras   para celo e piano?

Marlos Nobre – É um momento importante porque este CD Poema traz tudo que escrevi para violoncelo (solo e com piano) até o momento. É, portanto, a primeira integral até hoje e com o amor que dedico ao instrumento, outras obras  virão e já estão em preparação.

JC –  O senhor disse que foi influenciado no século 20 por Debussy, Bartok e Lutoslawski, que inovaram a linguagem musical sem romper com a tradição. Hoje, quem influencia Marlos Nobre? Marlos Nobre?

MN – É isso mesmo, hoje não existem mais influências de outros compositores e ouço cada vez mais a minha própria música interna. Portanto é de mim mesmo que flue, hoje, a grande influência de minha criação   musical.

JC –  O maior compositor brasileiro, vivo, ainda tem planos para o futuro?

MN – Estou carregado de projetos e as horas do dia não bastam mais. No momento termino uma grande obra sinfônica encomendada por meu amigo José Antonio Abreu, que terá sua estreia pela Simon Bolivar Symphony Orchestra, da Venezuela,  dirigida pelo mais importante regente jovem do mundo, meu também querido amigo Gustavo Dudamel. Além disso, ultimo minha primeira grande ópera e tenho encomendas de mais 10 obras de grande porte, um novo Concerto para Piano, um Concerto para Violoncelo, um novo Quarteto de Cordas, uma nova Cantata. Enfim, é trabalho duro e trabalho hoje 12 horas por dia, sem parar e é insuficiente!

JC – O público espera a finalização e encenação de Lampião, sua primeira ópera. O que foi feito dela?

MN – É justamente esta ópera que estou finalizando, finalmente. Uma ópera grande, que não é simples (aliás como toda ópera!). Um trabalho destes só vou estrear quando estiver perfeito e em condições ideais.   Felizmente, vejo hoje o Brasil avançado em termos de produções operísticas,  destacando-se o Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Manaus. Vamos ver em qual destes grandes teatros vou estrear meu Lampião. Na   realidade, espero que seja uma estreia simultânea ou sucessiva  nestes quatro grandes centros. Cantores, felizmente, temos de grande nível, grandes orquestras e grandes maestros, diretores de cena, cenógrafos, enfim, o momento chegou. Há alguns anos atrás era impossivel. Estou colocando agora os pontos finais na grande ópera Lampião, podem esperar.

JC – O violoncelo sempre foi um de seus instrumentos diletos. Podemos  contar com mais peças para celo?

MN – Minha meta imediata para o violoncelo agora é um grande Concerto para Violoncelo e Orquestra cujos traços fundamentais e movimentos já estão esboçados. Uma encomenda para a finalização da obra é entretanto essencial, pois hoje trabalho fundamentalmente com encomendas e tenho de colocar este projeto na fila. Mas o meu sonho é este concerto e espero que seja estreado pelo Leonardo Altino, meu grande intérprete, hoje, no violoncelo e o que melhor entendeu minha mensagem e minha maneira de sentir e escrever para ele, além de sua sensibilidade à flor da pele.

JC – Como o senhor analisa a produção de música erudita no Brasil? Há compositores que lhe despertam interesse e aplausos?

MN – Eu vejo com grande satisfação, em primeiro lugar, a quantidade incrível de novos compositores surgindo no Brasil. Eu sempre recebo em casa, aos sábados, quando estou no Brasil, os jovens que veem me mostar suas  obras novas e ouvir meus comentários. Tenho notado a crescente leva de bons compositores, um fator digno de nota. Não quero mencionar um ou dois, isso seria até indelicado, pois vejo em todos que tenho ouvido um grande talento, verdadeiro interesse e amor pela profissão. A eles dedico atenção e dou dicas constantes para o futuro. Eles representam a esperança da música no Brasil e espero que vençam as dificuldades terríveis de uma carreira de compositor de música de concerto no Brasil atual.

JC – O Nordeste ainda é fonte de inspiração para o senhor ou a globalização musical força o afastamento da chamada cultural popular?

MN – O Nordeste e, particularmente, Pernambuco, e mais ainda o Recife, nunca se afastaram de minha mente criadora. Eu sempre tenho afirmado que é no baú das recordações musicais de minha infância no Recife, menino na Rua de São João, Bairro de São José, ouvindo os maracatus, fevos, cirandas, caboclinhos, que ficaram as marcas de minha música mais profunda. Este é o Recife profundo, o Pernambuco fundamental, as fontes puras e mais vitais de minha música. Isso é irreversível e o mundo inteiro já sabe e cita em todas   minhas biografias. A globalização para mim é a pluralidade com a marca do local, só podemos ser globais se carregamos conosco a essência da nossa  fomação primeira, das nossas fontes vivas. O artista que perder isso está, em   minha opinião, perdido para sempre. E este não é o meu caso.

JC – Por que o Brasil insiste em desconhecer a música erudita criada no País?

MN – São muitos “porquês”… mas fundamentalmente trata-se de um complexo hereditário de valorizar o que vem de fora, de ter de se mostrar antenado com o estrangeiro. O nosso jovem conhece e procura conhecer mais o que se faz em Londres e nos Estados Unidos, e canta mais em inglês do que em português ou espanhol. Os meios de comunicação servem às grandes forças das indústrias culturais e o lixo musical, qualquer coisa, que venha de fora, supera qualquer obra prima local. O nosso jovem ainda se envergonha de cantar em “brasileiro” e adora mostrar-se informado de tudo que se passa em … inglês.   Não sou nacionalista em criação músical, mas, sim, profundamente nacional em termos de política cultural e acho que aqui pecamos muito. Deixamos que a indústria da “coca-cola musical” invada nossos lares, nossos meios de comunicação (pela força do jabá e do dinheiro) empurrando para baixo as manifestações da música popular e de concerto do nosso país. Para mim isso é crime cultural, pois não somos mais uma república de bananas.

JC – Como anda o ensino da música no Brasil? Os cursos estão à altura da genealogia musical do brasileiro?

MN – O ensino vai excepcionalmente bem, é incrível o que acontece hoje no Brasil. Tem conservatórios de música como o de Tatuí, em São Paulo, que são verdadeiras usinas de formação de novos músicos.Temos coisas como a favela de Heliópolis (SP), com mais de dez orquestras de jovens, temos praticamente em todos os estados conservatórios e cursos de música produzindo músicos da maior qualidade. Hoje podemos formar tranquilamente cem orquestras sinfônicas ou populares somente com músicos brasileiros e de grande qualidade. Isso é uma maravilha. Mas veja um paradoxo: ainda algumas de nossas orquestras insistem em importar músicos do exterior para seus quadros, desprezando o material disponível de jovens brasileiros. Digamos que isso já melhorou, mas não tem mais cabimento continuar com isso no Brasil. Os jovens se formam aqui e merecem serem os primeiros a integrarem nossas orquestras, isso teria de ser uma norma de escolha, sempre ressalvando o fator qualidade, que já existe. Nossos jovens ainda vão para o exterior tentar a vida por lá, quando aqui seria seu habitat natural e mais lógico. Esta é uma questão de afirmação nacional também.

JC- Qual a obra que o senhor gostaria de compor e ainda não fez? Por qual razão?

MN – Tudo é questão de tempo. Se eu lhe disser que tenho um projeto a longo prazo de oito (8) óperas, hoje, parece meio utópico não é? Uma coisa é certa: a obra que eu gostaria de compor não é somente uma, mas a minha obra total e inclui necessariamente pelo menos trêsa (3) novas óperas.



Esse texto foi publicado terça-feira, dezembro 13th, 2011 às 7:55 AM na seção Clipping. Você pode acompanhar todos os comentários através do feed RSS 2.0. Você também pode comentar, ou criar um link para cá em seu site.

6 comentários to “Virtuosi: Marlos Nobre diz estar “carregado” de projetos (Jornal do Commercio)”

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