O animador de concertos

Na preleção do concerto da Série Vicente Fittipaldi deste sábado, Marcelo Jaffé sorteou kits da revista Continente e lembrou que já foi tema de matéria em suas páginas. Abaixo segue a reportagem, publicada em março de 2008.

***

O animador de concertos

Bom-humor e carisma de Marcelo Jaffé chamam a atenção para um personagem ainda pouco conhecido nos palcos da música clássica: o mestre de cerimônias

Carlos Eduardo Amaral

Já virou marca registrada do Virtuosi um músico cabeludo, sorridente, cujo “boa noite” contagiante e irrecusavelmente respondido em massa vem anunciando as preleções dos concertos principais do festival há dois anos, até à hora em que maestro Rafael Garcia, enfezado com o bate-papo prolongado, começa a gesticular para que ele acabe o “falatório” e os músicos possam entrar em cena. Assim, um violista que por acaso tornou-se comentarista tem derrubado um pouco da frieza, às vezes ártica, imperante entre orquestra e ouvintes, ajudando estes a entender melhor a arte dos sons.

Integrante do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, Marcelo Jaffé tem se tornado mais conhecido por ministrar mini-aulas informais de História da Música com a empatia de um apresentador de auditório, a ponto de o público não se importar que o início do concerto demore alguns minutos extras ou mesmo puxar conversa: anedotas, curiosidades de bastidores e fatos pitorescos então se juntam às explicações sobre que gênero de composição vai ser tocado, quando a obra foi concebida, de que ela trata e quem a escreveu.

Há cerca de quinze anos – quando o vídeo laser, pai do DVD, fazia sucesso – uma das exibições da série Clássicos em Vídeo Laser, em São Paulo, quase ficou comprometida por não haver alguém disponível para falar sobre o vídeo do dia. Os organizadores tentaram trazer três pessoas; Marcelo Jaffé, a quarta, topou e agradou de modo a ser convidado para outros encontros da série. Aí veio outro convite, agora para encarar um Parque do Ibirapuera num concerto de verdade: e apareceu o mestre de cerimônias sem cerimônias.

Revogando a premissa, um tanto presunçosa, de que “quem quer saber, corre atrás”, Jaffé tem a rara preocupação de transformar sua cultura musical em um canal de diálogo, considerando que diversos instrumentistas e maestros pecam por introspecção excessiva, contato afetado, deficiência de oratória ou, pior, limitam-se a tocar o que está na partitura. Por fora, os programas impressos vão diminuindo, pelo menos aqui no Recife, seja por falta de gente capacitada para escrevê-los, seja por mera contenção de gastos.

Os próprios pares gostam da descontração de Jaffé. Ele conta que um músico finlandês da Sinfônica da Galícia agradeceu-lhe a “aula” depois de uma apresentação da orquestra galega na capital paulista. Melhor recompensa partiu da Orquestra da Bayer – acompanhou a filarmônica alemã na turnê brasileira em virtude dos comentários do concerto inicial, no Ibirapuera. Com a Filarmônica de Israel, no mesmo parque, as explanações aconteciam antes de cada peça. Na terceira, Zubin Mehta generosamente o surpreendeu ao pedir que tomasse lugar entre as violas na execução.

O perfil televisivo de Jaffé – que, de microfone em punho e linguajar espontâneo, desfaz a formalidade de recitais a mega-concertos – rendeu-lhe uma atividade extra: dar aulas de História da Música e apreciação a um grupo privado de amigos, na sala de estar da casa de um deles, com a vantagem de mostrar os exemplos em seu instrumento. Na linha dos raros cursos destinados a iniciantes e habitués leigos, as conversas tratam dos períodos históricos e respectivos compositores de relevância, apoiadas em demonstrações de estilo.

Se alguém concordar que Marcelo Jaffé poderia ter seu talento comunicativo melhor aproveitado na mídia, escute o programa “O prazer da música”, na Rádio Cultura FM, transmitido também via internet (vide link adiante). São 60 minutos semanais, com reprise, dedicados a diferentes temas: um intérprete, um período, uma formação instrumental etc.; só que, no intuito de privilegiar a duração das obras, o apresentador adota o lema “informar muito falando pouco”, mas sem abandonar o didatismo.

Um dos grandes motivos de aborrecimento do público veterano de música clássica, os aplausos inadvertidos entre movimentos, não incomoda o músico. Conforme revela, no Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo todos sempre foram acostumados com as palmas e gostam delas, e não há problema algum quando elas só vêm no fim. Ele acredita não possuir fundamento a desculpa da perda de concentração nos intervalos dos movimentos, porque normalmente as peças são estudadas e ensaiadas.

O estímulo aos aplausos seria hábito antigo, pois – segundo Jaffé, que sugere listar os itens de etiqueta nos programas impressos – somente em décadas recentes sobressaiu o costume de se executar as obras completas. Certas orquestras seguem a sugestão. Problema real para elas é o apreço mínimo a obras modernas, contemporâneas e de compositores nacionais, advinda de comodismo coletivo dos músicos ou de incapacidade do regente, o que atrofia o horizonte sonoro do público sem este ter consciência. Outro motivo dessa limitação, entre parênteses, é de ordem econômica – evitar dispêndio com direitos autorais e aluguel ou compra de partituras.

Maestros dizem que compositores desconhecidos não atraem pagantes – argumento insustentável, sabendo-se que talvez nenhuma orquestra brasileira tenha público de predileção específica e que um interlocutor, mestre de cerimônias ou não, resolveria o caso. Marcelo Jaffé resume: “O público brasileiro é maravilhoso, adora todos os gêneros de música, mas tem pouca oportunidade para ouvir música clássica. Esta falta de familiaridade cria a necessidade de se oferecer explicação em concertos de todos os estilos. Quando se trata de um repertório que foge do ‘ouvir tradicional’ (harmonias agradáveis, contraponto simétrico, sonoridades aprazíveis, das obras pré-século XX), esta necessidade se torna ainda mais evidente”.

Ele lembra que a reação à música contemporânea sempre se deu, citando a estréia da Eroica (tachada de ‘longa e barulhenta’) e do Quarteto de cordas op. 74 “Harpa” de Beethoven (“disseram que ele estava louco ou achava que ‘o público era de palhaços’”). Bastaria, então, evitar repertório contemporâneo durante um* concerto inteiro e permitir as novas idéias sonoras serem assimiladas e julgadas criticamente.

A utopia de Jaffé, na qual ele colabora entretendo a sala de concerto, e de muitos melômanos é ver a música clássica conquistar mais admiradores e ter verdadeiro peso no mercado fonográfico. “Porém, não existe milagre. A música de concerto tem que estar inserida no cotidiano da sociedade, desde as aulas na rede de ensino, e desenvolver um processo complexo de implantação de uma espinha dorsal, como em qualquer profissão: escolas de formação, de aperfeiçoamento e de profissionalização em todas as cidades. Existem processos semelhantes acontecendo em diversos países, como a Venezuela e a Espanha”.

O próximo passo, mais utópico ainda para o violista, seria o de se construir teatros próprios para o repertório clássico em cada cidade e muni-los com orquestras. Enquanto isso, a figura do mestre de cerimônias de concertos deixará de ter dois ou três nomes isolados e se transformará em presença obrigatória nos teatros, provando que o universo da música clássica é convidativo e enriquecedor. Que você se acostume, ao se encontrar sentado, ensimesmado sob os sons difusos da afinação dos instrumentos, a ouvir mais vezes um efusivo “Boa noite!”… E flagrar o maestro nos bastidores, tenso, olhando o relógio.

Ouça o programa “O prazer da música” no site: http://www.tvcultura.com.br/radiofm/
Sábado, das 09 às 10h, com reprise quarta às 21h.

* Correção do autor

Copyright: Cepe, 2008.



Esse texto foi publicado domingo, dezembro 19th, 2010 às 1:22 AM na seção Sem categoria. Você pode acompanhar todos os comentários através do feed RSS 2.0. Você também pode comentar, ou criar um link para cá em seu site.

2 comentários to “O animador de concertos”

  1. Preston Goulas

    I simply want to mention I am all new to weblog and seriously loved this page. Likely I’m likely to bookmark your blog post . You actually have terrific writings. With thanks for sharing with us your website.

  2. "George Martin"

    “George Martin”…

    “[…]n I wish more authors of this type of content would take the time you did to w5[…]”…

Comente!

Seu comentário