Maestro Rafael Garcia (Foto: Flora Pimentel)

Confiram a entrevista do Diretor Artístico do Virtuosi à edição de dezembro da revista Concerto, que também destaca o Virtuosi nas páginas 48 e 49.

***

Rafael Garcia, maestro (1/12/2010)

Por Carlos Eduardo Amaral

Ele mora no Brasil há mais de 40 anos, mas seu sotaque hispânico permanece – evidenciado pelo vocabulário portunhol, que, por exemplo, o faz usar o verbo olvidar em vez de esquecer. Mesmo assim, o chileno Rafael Fernando Garcia Saavedra sente-se brasileiro e torce pela seleção canarinha desde que viu Garrincha jogar em seu país natal, na Copa de 1962. Mas a principal razão para o violinista e maestro ter criado laços com o país foi uma pianista que conheceu em 1966, numa escala que fez de navio no Rio de Janeiro quando se dirigia à Alemanha para estudar violino: a recifense Ana Lúcia Altino. Com ela, formaria um duo durante a viagem, iniciaria um namoro e se casaria antes de voltar ao Brasil. Dos seis filhos que tiveram, a única mulher, Aninha, comanda um dos maiores festivais de indie rock da América Latina, o Coquetel Molotov, e outros três tornaram-se músicos: o violista Rafael, residente na Dinamarca; o violoncelista Leonardo, que mora nos Estados Unidos; e Marcelo, baixista não profissional de jazz contemporâneo em São Paulo. Rafael Garcia, que recebeu o título de cidadão pernambucano em 2006, concedeu esta entrevista à Revista CONCERTO em seu apartamento à beira-mar em Jaboatão dos Guararapes, ao sul do Recife. Na sala de estar, uma rica coleção de artesanato e arte sacra ultrapassa duas mil peças, incluindo obras de Samico e João Câmara, além de uma iluminogravura de Ariano Suassuna. Em pouco mais de uma hora, antes de abandonarmos as formalidades da conversa para comentarmos blu rays de concertos, Rafael Garcia falou de sua vida no Chile, da carreira no Brasil e, claro, do Virtuosi que realiza junto com sua esposa e que, neste mês de dezembro, completa treze edições na condição de festival de música clássica de maior destaque no Nordeste.

Maestro Rafael, como começou sua vida musical?
Começou incentivada por meu pai, arquiteto especialista em monumentos Gustavo García Martinez, que gostava muito de ópera italiana. Ele nos obrigava a ouvi-las todas as noites – enquanto jovens de minha idade estavam na rua jogando futebol ou andando de bicicleta. Minha mãe estudou balé; não foi profissional, mas nos incentivou muito. Éramos três irmãos: Gustavo, o mais velho, violinista aposentado e radicado em Madri; Julio, pianista e pintor; e eu, o menor.

Quantos anos você tinha quando aconteceu o grande terremoto no Chile (1960) e que lembranças você guarda daquele episódio?
Eu estava com dezesseis anos. Afortunadamente, o pessoal da classe média no Chile tem residências construídas contra sismos – nelas, a única coisa que poderia cair era o teto, de gesso. Minha preocupação era com meu pai, que estava numa reunião do Clube 24 da Maçonaria, composto por grandes intelectuais do Chile radicados em Santiago. Peguei o carro e fui atrás dele. Logo que o vi na rua, parecia esses filmes antigos que não tinha música: fui correndo, como numa catástrofe em um filme de Charles Chaplin, sem som.

O que o levou a deixar o país?
Naquela época, o Chile era considerado um país isolado na América Latina. Foi essa falta de espaço que me fez deixá-lo em 1966, graças a uma bolsa de estudos do governo alemão (do DAAD, Deutscher Akademischer Austauschdienst). Na escala do navio no Rio, Ana Lúcia embarcou e fomos juntos até Gênova. A viagem durou 17 dias. Deu para fazer muita música e começar um namoro, que se transformou em casamento e rendeu seis frutos. Na Alemanha, tive a oportunidade de estudar com Tibor Varga. E, junto com Ana Lúcia, estudei música de câmara com Günter Weissenborn, acompanhante de Dietrich Fischer-Dieskau. Foram momentos inesquecíveis que tivemos em uma cidade muito pequeninha, chamada Detmold.

Em que ano você veio para o Brasil e quais atividades desenvolveu?
Prestei um concurso em 1969 para a Filarmônica de Estocolmo, para trabalhar com Antal Dorati, e Ana Lúcia recebeu um convite para ser assistente de Klaus Schilde. Logo depois surgiu outro convite para Ana, do ex-professor dela, Edson Bandeira de Mello, para atuar na TV Universitária como secretária da divisão de música. Trabalhamos aqui por três anos. Eu era produtor na TVU, tinha convite para ser spalla da Sinfônica do Recife, lecionava na UFPB e tocava no Trio da Paraíba, além de ser violino assistente da Orquestra Armorial, ao lado de Cussy de Almeida. Eleazar de Carvalho, passando pelo Recife certa vez, ouviu a mim e a Ana Lúcia num recital e me fez uma oferta irrecusável: ganhar na Osesp o dobro do que eu ganhava em todos aqueles empregos juntos, com Ana Lúcia recebendo o mesmo que eu. Em São Paulo, tornei-me spalla em menos de um ano e ficamos de 1972 a 1977.

Por que então a mudança para a Paraíba?
Na época, tínhamos um trio com o qual rodávamos por todo o Brasil e passamos por João Pessoa. O então secretário de Educação e Cultura, Tarcísio Buriti (que viria a ser governador em 1979), estava presente e nos convidou para participar da Orquestra de Câmara do Estado da Paraíba. Com a ida para João Pessoa, veio o convite de Lynaldo Cavalcanti, reitor da UFPB, para ensinarmos na universidade. Aceitamos e ganhamos carta branca para chamar professores de todo o país e do exterior. Foi o início de um sonho que durou nove anos (de 1977 a 1986). Depois disso, nos transferimos para a Universidade Federal de Pernambuco, para então nos darmos conta de que era como está até agora: uma espécie de cemitério musical. Em pouco tempo, Ana Lúcia disse: “Temos de ir embora”, e conseguiu uma bolsa de estudos para fazer doutorado na Boston University, onde então ficamos por outros nove anos. Foi quando tivemos contato com a colônia de asiáticos, russos e nórdicos que faria parte do Virtuosi.

O Virtuosi começou como encontro de família, em 1998, e transformou-se no único festival estável e totalmente dedicado à música clássica no Nordeste. A que isso se deveu?
O Virtuosi tornou-se um festival estável devido principalmente à calorosa receptividade do público, à nossa perseverança e à maravilhosa participação de artistas nacionais e internacionais que adoram vir para o Recife. Minha esposa sempre fala que, na vida, a dor do parto sempre é passageira e se esquece facilmente. É o que acontece com o Virtuosi, que apesar do reconhecimento nacional e internacional, a cada ano é um novo parto!

O Virtuosi apresenta mais obras de câmara que orquestrais. O que seria preciso para dar mais equilíbrio à programação?
O festival infelizmente não consegue manter uma orquestra sinfônica todos os anos, mas, a cada vez que isso acontece, a orquestra toca mais obras que algumas sinfônicas estáveis do Nordeste. Quando não tem sinfônica, temos de câmara, e sempre procuramos oferecer um repertório diferenciado. Obviamente, um festival como esse não mereceria só uma semana, mereceria ser como Campos do Jordão. Não estou amargurado com a falta de apoio, encaro como um desafio: o de transformar um sonho em um festival de sete dias. O Virtuosi expandiu-se, apesar de todos os empecilhos. Hoje temos o Virtuosi Brasil, o Virtuosi na Serra e o Virtuosi em Gravatá, este, se depender das atuais lideranças culturais e políticas, será o futuro Campos do Jordão do Nordeste. Mesmo assim, vivemos de momentos musicais durante o ano e não uma vida musical. Tudo isso obviamente traz transtornos: eu e minha esposa nos dedicamos dia e noite a esses projetos. Poderíamos morar nos Estados Unidos, mas decidimos ficar aqui e dizer o que deve ser feito, pois acredito muito em uma política de choque. E com os artistas convidados criamos uma família, em que todos foram importantes e se sentiram valorizados. Este ano, como outras vezes, alguns músicos vêm por amor à arte, sem cobrar cachê: só por um bom teatro, um público interessado, uma boa orquestra, um hotel confortável e essas condições que não se encontram em qualquer lugar.

Nesses anos todos de carreira, o que você gostaria de ter feito, mas não teve chance?
Uma escola de música de excelência. É um sonho que, com nossa experiência, estou seguro de que poderíamos fazer aqui em Pernambuco. Mas as portas hoje estão fechadas. Como dizia Nietzsche: “Sem a música, nossa vida teria sido um erro”.

Obrigado pela entrevista.