O compositor e pianista paulista Amaral Vieira, maior divulgador e principal intérprete da obra de Franz Liszt no Brasil, gentilmente respondeu ao convite do Virtuosi para comentar um pouco sobre as contribuições do expoente romântico homenageado esta noite por Olivier Moulin. Durante a leitura, acompanhe neste vídeo a interpretação de Amaral Vieira, que na próxima semana estará em Aracaju para o concerto de encerramento anual da Orquestra Sinfônica de Sergipe, para o Prelúdio e Fuga em lá menor de Bach sob paráfrase de Liszt.

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Liszt, menos lembrado pelo grande público do que seus contemporâneos, deixou grandes contribuições composicionais e interpretativas que muitas vezes não recebem a devida atenção dos ouvintes? Você poderia enumerar algumas dessas contribuições?
São inúmeras as contribuições de Liszt que não são devidamente valorizadas, infelizmente. Para citar somente aquelas que tiveram impacto definitivo na prática musical, devemos lembrar que foi Liszt quem criou a forma de recital de piano tal como a conhecemos hoje. O pianista antigamente tocava de costas para a platéia!

Liszt reposicionou o instrumento, para que a cauda ficasse aberta na direção dos ouvintes, projetando o som de modo muito mais apropriado (sensato, convenhamos!). Foi portanto o primeiro pianista a tocar de perfil para o público (o que hoje nos parece completamente normal – mas alguém teve que romper com as convenções vigentes).

Liszt foi o primeiro pianista a tocar um recital completo de memória… o primeiro artista a se apresentar sozinho em um evento (sem a participação de outros intérpretes)… o primeiro pianista a tocar um recital inteiro com obras de um único compositor… após Beethoven, foi Liszt quem conseguiu elevar a condição social do músico… sua presença era disputada pela alta aristocracia européia e pelas autoridades religiosas, e era recebido e tratado por reis, rainhas e papas em termos de absoluta igualdade… toda a classe musical se elevou através de Liszt, que foi o mais popular músico erudito do seu tempo…

O virtuosismo lisztiano e paganiniano tem consistência ou é, como alguns acusam-no, pura “pirotecnia”?
O virtuosismo lisztiano (ainda mais do que o paganiano, na min ha opinião) tem absoluta consistência, pois é um elemento interpretativo novo e insubstituível. O mau uso que diversos intérpretes fizeram desses recursos, transformando-os em exibições vazias de pirotecnia e valorizando somente aspectos técnicos, não deve afetar a visão da linguagem lisztiana.

As passagens de dificuldade transcendental não são meras guirlandas jogadas gratuitamente sobre os ouvintes, mas sim elementos interpretativos do mais alto interesse, que exploram novas possibilidades interpretativas. Liszt em mãos erradas pode soar de modo abominável… mas o mesmo se aplica por exemplo a Chopin… um intérprete egocêntrico e de visão estreita enfatizará sempre de modo desequilibrado os elementos que fazem parte de uma composição… em Liszt, transformará as oitavas, escalas, arpejos e cadências endiabradas em fogos de artifício, sacrificando a visão de conjunto e a arquitetura musical… em Chopin, usará e abusará do rubato e da liberdade, em nome de uma expressividade para lá de questionável… são os intérpretes auto-biográficos, que se apoderam das obras alheias…

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