Durante a leitura do texto, escute os movimentos iniciais do Réquiem contestado, de Eli-Eri Moura, que terá sua nova obra – Réquiem para um trombone – estreada hoje no Virtuosi.

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1. Como você estruturou o Réquiem para um trombone e qual a linha estética que a obra seguirá?
O Réquiem para um Trombone está estruturado em 11 movimentos, sendo que 3 deles acoplam duas seções cada, da seguinte forma:

01) Prólogo
02) Introitus e Kyrie
03) Dies Irae
04) Rex Tremendae / Nada Temas (Isaías 41:10)
05) Salmo 23
06) Sanctus e Benedictus
07) Agnus Dei
08) Libera me
09) Lux Aeterna
10) In Paradisum
11) Epílogo

O texto é, na maioria, extraído do Réquiem tradicional, em latim, com algumas inserções de passagens bíblicas, como Isaías 41:10 e o Salmo 23, em português. A linguagem musical é abertamente tonal, uma vez que era a música tonal que Radegundis mais amava.

2. O réquiem irá conter tropes (comentários intercalados ao texto litúrgico), como no seu Réquiem contestado? De que espécie?
Não. Diferente do meu outro réquiem (Réquiem contestado), este é todo cantado e pautado na tradição de requiems modelares, sem acréscimos de comentários. A novidade já está na configuração vocal/instrumental, que inclui um trombone solista, uma soprano solista, orquestra de cordas com piano, e coral. O título da obra foi criação da própria Ana Lúcia Altino (Diretora Executiva do Virtuosi), que me comissionou a peça.

3. A obra terá algum fio condutor ou algum elemento relacionado ao homenageado (Radegundis)?
De modo geral, o Requiem para um Trombone representa a passagem/jornada de nosso querido Radegundis deste nosso plano para outro superior: claro, o trombone representa o próprio Radego, a soprano um anjo e o madrigal um coro de anjos. Essa idéia é que dá suporte à ordem escolhida dos movimentos, a partir de uma “indagação existencial” feita pelo trombone no Prólogo (para trombone solo). A resposta vem primeiro com o anjo e seu coro na invocação por repouso eterno e luz perpétua aos mortos, no Introitus, e pedido de piedade ao Senhor, no Kyrie.

O anúncio do Juízo Final é feito pelo coro no Dies Irae (Dia de Ira); o trombone roga por salvação em Rex Tremendae; o anjo lhe dá conforto citando Isaías: “nada temas, pois estás aqui comigo e já te seguro com a minha mão direita”. Com o Salmo 23, o trombone (na voz do coro) faz sua profissão de fé. Em Sanctus e Benedictus estão todos na presença de Deus e cânticos de louvor são entoados. Na seqüência há as invocações finais: Agnus Dei (dos anjos ao Cordeiro de Deus), Libera me (do morto, rogando para se livrar de morte eterna), Lux Aeterna (do anjo). In Paradisum é a entrada no paraíso. No Epílogo o trombone faz sua despedida final.

A obra é em boa parte baseada nas letras musicais que existem no nome RADEGUNDIS: A (lá), D (ré), E (mi), G (sol). No Prólogo, por exemplo, este tema aparece de forma literal com as notas transpostas uma terça abaixo.