Entrevista com o Maestro Rafael Garcia (Agenda Cultural do Recife)

Como começou o seu envolvimento com a música?
Venho de uma família muito ligada à arte. Meu pai, arquiteto de monumentos, era uma pessoa que gostava muito de música clássica especialmente de ópera. Desde muito pequeno era obrigado a ouvir essas músicas coisa que no início eu sentia como uma obrigação, mas aos poucos ela foi me envolvendo e começou a fazer parte da minha vida. Minha mãe gostava de pintura e da dança clássica e meu irmão mais velho (8 anos mais velho) estudava o violino com muita dedicação. Não foi difícil escolher para mim a música como profissão. Estudei no Chile e aos 22 anos fui com bolsa do governo alemão estudar na Escola Superior de Música de Detmold, onde conheci Ana Lúcia, minha esposa.

E como foi o processo para você se tornar efetivamente um maestro?

Quando vim da Alemanha para residir no Recife, fui contratado como professor da Universidade Federal da Paraíba, entre outros empregos. Lá por volta dos anos 71, 72 comecei minha experiência como regente trabalhando com a orquestra de jovens que tinha na época na Coordenação de Extensão. Durante minha estadia em São Paulo como spalla da OSESP, o Maestro Eleazar de Carvalho me ofereceu a chance de ser seu assistente. Na ocasião, eu estava muito voltado para o violino e não pensava em ser maestro. Ao mudar para a Paraíba, comecei, como spalla da Orquestra Sinfônica da Paraíba, a preparar as cordas, ensaiando regularmente cada programa, depois veio a preparação da Orquestra Jovem e finalmente criei minha própria orquestra chamada Solistas da Paraíba com a qual realizamos uma turnê por todas as capitais do país. Com essa orquestra, eu dirigia tocando violino, como spalla. Quando passei a residir no Recife, criei a Orquestra Jovem de Pernambuco. A partir daí, fui me dedicando cada vez mais à regência e deixando o violino de lado. Nos Estados Unidos, tinha minha orquestra jovem da cidade de Lexington (MA), fui também, como maestro, para o festival String in the Mountains (CO). Retornando ao Brasil, reativei a Orquestra Jovem de Pernambuco e com a criação do festival VIRTUOSI pude então me dedicar inteiramente à regência.

Dá para identificar a sonoridade brasileira na música erudita?
Eu acredito que sim, principalmente ritmos e melodias. Não creio que seja exatamente uma sonoridade brasileira, mas ritmos e melodias que lembram todas as influências folclóricas que a nossa música sofreu e ainda sofre. Evidentemente isso é mais claro nas músicas dos compositores nacionalistas. Villa-Lobos deixa muito claro em sua obra toda essa influência dos cantos dos pássaros, do barulho dos rios, da floresta, etc.

Como você avalia a história do VIRTUOSI, que chega a sua 14ª edição? Qual o maior desafio para a realização dele?
Um projeto vitorioso. O que nos levou a criar o festival em 1998 francamente foi o tédio que se abateu sobre o meio musical. Nada acontecia. Hoje o VIRTUOSI se divide em vários eventos como o Brasil, Gravatá, Garanhuns, Sem Fronteiras e o Internacional. No próximo ano, teremos o dedicado à música contemporânea. Esse crescimento é a melhor avaliação que o projeto pode ter. O VIRTUOSI também tem servido de estímulo para o surgimento de outras iniciativas que têm contribuído enormemente para o desenvolvimento cultural da região. O VIRTUOSI oferece ao público pernambucano e da região Nordeste uma música de excelente qualidade, a oportunidade de conhecer artistas nacionais e internacionais que normalmente não passam por aqui, a chance de ouvir e conhecer obras inéditas oferecendo classes gratuitas para estudantes da região, entre outras coisas. Nosso maior desafio para realizar os festivais é a captação de recursos. Temos parceiros fiéis que acreditam no nosso trabalho e que, independentemente da função que ocupam, estão sempre conosco. Aproveitamos para agradecer a Leda Alves que considero a fã nº 1 do VIRTUOSI. Se a mentalidade de nossos governantes e empresários fosse mais aberta e mais sensível, certamente seria muito mais fácil realizar o VIRTUOSI.

Este ano, além do Recife, de Olinda e de João Pessoa, o VIRTUOSI chega pela primeira vez a Belém do Pará. Como é essa missão de levar a música erudita ou clássica ao alcance de tantas pessoas?
Isso deveria acontecer durante todo o ano, sem pausas. Hoje fazemos por época e durante alguns dias. Se tivéssemos as condições necessárias, a música clássica estaria presente no cotidiano de cada pessoa, nas rádios, TVs, concertos públicos, escolas, etc. Quando começamos a fazer o VIRTUOSI em Garanhuns, sete anos atrás, havia um sentimento de medo em relação à reação do público. Entretanto, recebemos centenas de cartas do público presente contando cada um sua história particular de como recebeu essa música durante aquele período. Lindo de ver, aquele que veio no primeiro dia e se cansou, dormiu, mas depois veio novamente, gostou e no final queria estudar um instrumento. É essa a reação que o público tem. Gosto sempre de lembrar que em primeiro lugar devemos lidar com a sensibilidade e com a emoção das pessoas e em segundo, levar na maioria das vezes músicas que permanecem no tempo – nossos hits duram mais de 200 anos!

Nesta edição, o VIRTUOSI homenageia os compositores Franz Liszt e Gustav Mahler. Como foi feita essa escolha?
São dois compositores importantes na história da música ocidental e ambos estão sendo celebrados no mundo inteiro. Franz Liszt pelos 200 anos de nascimento e Gustav Mahler pelos 100 anos de sua morte. Liszt teve um papel fundamental na história do piano. É importante salientar que o VIRTUOSI escolheu três pianistas, Jihye Chang (Coreia), Victor Asuncion (Filipinas) e Peter Laul (Rússia), para mostrar cada um facetas diferentes da obra pianística de Liszt.  São estudos, rapsódias, valsas, transcrições de obras de Wagner e Schubert e o Concerto nº 2 para piano e orquestra.Gustav Mahler é um compositor muito pouco tocado por aqui. Essencialmente sinfônico, suas obras solicitam por orquestras muito grandes o que dificulta a execução. Escolhemos um repertório de Mahler com versões camerísticas feitas por outros compositores como Schoenberg e Gerard Müller-Hornbach. Dessa forma, vamos poder apresentar para o público pernambucano pela primeira vez a obra A Canção da Terra, sinfonia para voz e orquestra, que na realidade deveria ter sido a 9ª Sinfonia de Mahler, mas, por superstição, ele preferiu não colocar número (por causa de Beethoven). Essa obra foi escrita para tenor e mezzo (ou barítono) e orquestra. Além dela, faremos alguns dos Rückert Lieder e o Adagietto da Sinfonia nº 5 escrito para cordas e harpa.

Quais são as novidades que o VIRTUOSI apresenta este ano?
O VIRTUOSI faz questão de apresentar todos os anos obras inéditas. Este ano, temos a apresentação pela primeira vez nas Américas de dois concertos de Vivaldi, recém-descobertos pelo violinista francês Anton Martynov em Viena. Ele mesmo vai executá-los. Além dessa obra, também teremos a estreia nas Américas do Concerto para viola e orquestra intitulado Steppenwolf de Christian Lindberg. Esse concerto foi escrito especialmente para Rafael Altino e a estreia aconteceu em outubro passado em Odense, Dinamarca. Não podemos deixar de falar da participação excepcional de Leonardo Altino que abre a programação com as 6 Suítes para cello solo de Bach. Esse é um feito raro. Poucas pessoas têm a coragem de enfrentar essa maratona e Leonardo vai fazê-la na Igreja da Sé, no dia 10, às 18h e às 20h. Leonardo também apresentará pela primeira vez o Concerto para cello e orquestra de sopros de Gulda. A Cantata Bruta, escrita por seis compositores paraibanos, também será um marco no festival.

Qual é a sua maior realização hoje, à frente desse festival?
Eu acredito que seja o fato de poder contribuir para o enriquecimento da música no estado de Pernambuco. É levar para o público jovem e para o público tradicional que normalmente lotam nosso teatro uma música que em geral não é ouvida por aqui e nosso pagamento é o aplauso caloroso desse público. Através do calor de nosso público e da alegria de nossos artistas convidados que já querem voltar no ano seguinte, sinto-me plenamente realizado e convicto de que o VIRTUOSI está no caminho certo.



Esse texto foi publicado terça-feira, dezembro 6th, 2011 às 12:02 PM na seção Clipping. Você pode acompanhar todos os comentários através do feed RSS 2.0. Você também pode comentar, ou criar um link para cá em seu site.

13 comentários to “Entrevista com o Maestro Rafael Garcia (Agenda Cultural do Recife)”

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