Cravista antenada com o futuro (Diário de Pernambuco)

Se é difícil viver de música no Brasil, pode-se dizer que é quase impossível viver de tocar cravo. O instrumento, que passou o século 19 na obscuridade, foi retomado em meados no século seguinte, mas permanece como patinho feio no rol musical. A cravista Rosana Lanzelotte, uma das principais do país, confessa que nenhum dos colegas de profissão vive exclusivamente dos concertos. “Todos os meus amigos têm também carreira acadêmica. Roberto de Regina foi o que mais viveu disso”, compara, citando o responsável pelo renascimento no Brasil, na década de 1960.

Para quem nunca viu um concerto de cravo, uma boa chance é a abertura do 8º Virtuosi Brasil, hoje, no Centro Cultural dos Correios, às 19h, com entrada gratuita. Rosana mostra a influência da música europeia do século 18 sobre os ritmos brasileiros, no concerto O cravo e suas raízes portuguesas. O programa faz parte de longa pesquisa, iniciada quando ela trocou o piano pelo cravo, aos 20 anos. “Achei que aquele era o meu instrumento. O cravo tem um aspecto que requer também pesquisa, arqueologia. Tenho um pouco o vírus de pesquisadora”, diz.

O primeiro obstáculo é simplesmente conseguir o instrumento para tocar. No Recife, por exemplo, há somente dois exemplares acessíveis, na Universidade Federal de Pernambuco e no Conservatório Pernambucano de Música. Por outro lado, o piano, seu principal concorrente, é encontrado com facilidade até em casas.

Engana-se, entretanto, quem pensa que o cravo é “coisa do passado”. As principais composições para o cravo são barrocas. Mas isso é influenciado pela sua popularidade nos séculos 18 e 19, não pelo seu som. “O cravo soa mais moderno e brasileiro porque tem linguagem rítmica semelhante com violão e cavaquinho”, explica Rosana. A segunda dificuldade engloba toda a produção musical brasileira: a ausência de partituras.

O projeto Musica Brasilis é a estratégia de Rosana para enfrentar a dificuldade de acesso a composições brasileiras. Ela, que é doutora em informática e mestra em música, uniu os dois conhecimentos para desenvolver o projeto. O portal na internet reúne partituras, áudios, vídeos e recursos interativos da produção musical brasileira antiga e contemporânea.

Mesmo as peças de Villa-Lobos, de acordo com a pesquisadora, estão somente 50% disponíveis. Quando se trata dos menos conhecidos, a situação é ainda pior. “No Recife, nasceu Luiz Álvares Pinto, um dos principais nomes do século 18, possivelmente o maior. Mas ele é pouco conhecido”, exemplifica Rosana. Ela conta ainda que em 2005, ano do Brasil na França, autoridades francesas queriam apresentar nossos compositores. A ideia esbarrou na falta de acesso às peças.

Para ela, é também a falta de acesso que faz com que a música clássica não chegue à população. “A gente tem essa coisa de que a música popular é de tão boa qualidade que é só o que conta. Mas  Tom Jobim e Edu Lobo tiveram a música clássica em sua formação”, conta. Rosana tenta combater esse preconceito nos concertos. E tem dado certo. (Luiza Maia)

Agende-se

17/05 (19h)
Rosana Lanzelotte – O cravo brasileiro e suas raízes portuguesas

18/05 (19h)
Solistas da Camerata Aberta
Cássia Carrascoza (flauta)
Luis Afonso Montanha (clarinete/clarone)
Fabio Cury (fagote)
Herivelto Brandino (percussão)
Martin Tuksa (violino)

19/05 (19h)
Orquestra Jovem de Pernambuco, sob regência do maestro Rafael Garcia. Solista: Daniel Guedes

20/05 (17h)
Mario Ulloa & Daniel Guedes – Violão e violino na música popular brasileira


Serviço
Centro Cultural dos Correios Onde: Avenida Marquês de Olinda, 262, Bairro do Recife
Quanto: Entrada franca
Informações: 3224-5739



Esse texto foi publicado quinta-feira, maio 17th, 2012 às 10:58 AM na seção Clipping. Você pode acompanhar todos os comentários através do feed RSS 2.0. Você também pode comentar, ou criar um link para cá em seu site.

Um comentário to “Cravista antenada com o futuro (Diário de Pernambuco)”

  1. Carlos Fagundes

    Sinceramente, como que um site de um festival de música se dispõe a falar que é muito difícil viver de música no Brasil, ainda mais como cravista? É O CÚMULO DO ABSURDO, DA IGNORÂNCIA E DA FALTA DE RESPEITO! Isso deve ter sido escrito por um jornalista, porque um músico PROFISSIONAL nunca escreveria uma asneira dessas.

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