Artigo de Amaral Vieira sobre Liszt

O inovador piano de Liszt

O pianista e compositor húngaro Franz Liszt (1811-1886) foi incontestavelmente o criador da moderna técnica do piano. Esta verdade histórica é universalmente aceita, mas não chega a relevar o fato de que a enorme produção pianística de Liszt continue ainda hoje desconhecida de intérpretes e público. O conjunto da obra lisztiana, excetuando-se algu¬mas peças de virtuosismo e bravura (sempre as mesmas, infelizmente), tem sido muito injustamente negligenciado.

As inovações empreendidas por Liszt em suas composições pianísticas podem ser mais facilmente compreendidas a partir de uma apreciação técnica de suas obras. Baseando-se inteiramente nas possibilidades físicas naturais da mão, consegue Liszt desenvolvê-las ao extremo, multiplicando a riqueza de efeitos pianísticos tanto no domínio puro da sonoridade, como também no aspecto mecânico, rítmico e dinâmico.

O piano é tratado por Liszt de forma essencialmente dramática, e é justamente para atender às exigên¬cias desse dramatismo expressivo e dinâmico que ele é levado a criar sua técnica prodigiosa e original, partin¬do das descobertas de Beethoven e Weber e encaminhando-as a riquezas de sonoridades até então desconhecidas: efeitos de temas em acordes, notas dobradas, oitavas caracterizadas de modo tão pessoal, a grande tessitura com que sua música amplia o teclado e a polifonia complexa de uma escrita quase orquestral, densa e grandiosa.

Acrescentemos ainda os saltos de grandes intervalos, trêmolos, glis¬sandi, pizzicati, figuras que entrelaçam ou superpõem as mãos, trinados em registro agudo imitando o címbalo, ornamentos fulgurantes em notas dobradas, e este hábito de fazer cantar poderosamente uma voz intermediária com a utilização alternada dos polegares. Tudo isto era inteiramente novo e transformou a fisionomia do piano, e consequentemente, da música de piano, abrindo as portas a todas inovações e realizações que se farão sentir na música moderna de piano.

Libertação da técnica

Com Liszt vivenciamos a total libertação da técnica pianística, e isto por uma razão estritamente musical. Salvo raras exceções, Liszt não faz a técnica pela técnica, mas utiliza-a para a concretização das idéias musicais que povoam seu universo sonoro. E foi justamente por ter libertado a técnica pianística de suas aparentes limitações que Liszt tornou-se até tempos bem recentes um compositor “suspeito” na opinião de certos intérpretes, críticos e professores, que sentiam uma desagradável vertigem em suas pequenas rotinas ao se deparar frente a uma tal liberdade de recursos técnicos, bem acima de suas próprias capacidades.

Porém não foi esta a única inova¬ção que o piano deve a Liszt. Ao libertar o teclado no campo da mecânica instrumental (que teve como conseqüência a grande reformulação da construção dos planos), ele também o fez no aspecto da forma musical, a qual procurou colocar a serviço de sua concepção artística original, através de um tratamento formal exclusivamente suscetível de exprimir seu pensa-mento de modo fiel, sem concessões a qualquer esquema escolástico.

A grandeza de Liszt manifesta-se sobretudo em sua permanente recusa em aceitar tais esquemas, trocando-os os sempre pela própria invenção tanto no campo sonoro como no arquitetônico, buscando meios adequados à tradução de seu pensamen¬to, e nisto ele também abriu uma importante porta aos movimentos de liberalismo estético que caracteri¬zam a evolução da musica moderna. Tendo sido o genial inovador do piano, não nos parece ter sido o objetivo principal de Liszt um rom¬pimento com as tradições essenciais dos compositores que o antecederam, em particular Beethoven.

Entretanto, as novidades que in¬troduziu audaciosamente no tratamen¬to pianístico significaram quase uma revolução. Liszt, ao escrever para piano, já tinha em mente a sala de concertos moderna, mesmo antes que esta existisse: a sala ou teatro para centenas ou mesmo milhares de pessoas. Para tanto, criou o estilo do plano orquestral (uma das características do piano moderno), que dá ao instrumento todas as proporções e repercussões sonoras que ele com¬porta. A concepção pianística de Liszt faz com que todo o corpo do intérprete esteja envolvido na execu¬ção musical: pulsos, braços, cotovelos, ombros tornam-se elementos importantes para o enriquecimento do contato instrumental Um compositor como Chopin, que em suas obras enxergou longe musicalmente, não teve uma visão tão audaciosa no tocante ao plano físico pianístico.

Produção gigantesca

Talvez as novas combinações criadas por Liszt já tivessem sido pressentidas por Scarlatti. Mas será tão somente o mestre húngaro que em toda a plenitude de seu gênio concretizará de modo definitivo uma nova linguagem pianística de tal ousadia. Um outro aspecto digno de nota é o emprego do pedal na obra de Liszt, de uma audácia chocante para seu tempo. Contrariando freqüentemente todas “regras” de harmonia e superpondo acordes sem parentesco harmônico num mesmo pedal, estava Liszt preparando e anunciando os elementos de uma paleta sonora que viria a se tornar um dos mais importantes recursos dos compositores franceses do começo do século 20.

A gigantesca produção pianística de Liszt – da qual algumas composi¬ções conheceram várias versões mui¬to diferentes – reflete três aspectos essenciais em sua atitude frente aos problemas do teclado. Primeiramen¬te o técnico transcendente, que mul¬tiplicou as possibilidades do instru¬mento e a habilidade dos intérpretes (basta uma comparação com a música de piano escrita por outros compositores contemporâneos de Liszt para comprovar esta afirmação). Em seguida, o músico romântico, criador da música livre programática (toda uma parte de sua obra pianística atua como experiências que precedem a criação do poema sinfônico). E enfim o compositor de música pura – a menos típica de Liszt – com obras como a Sonata em si menor e os dois Concertos para piano e orquestra. Isto significa que a produção pianística pode chegar a resumir bem abrangentemente a totalidade do universo lisztiano.

A obra pianística de Liszt é a parte. mais fortemente francesa de sua criação. Sabemos que Liszt foi sobre tudo um cosmopolita, às vezes hún¬garo, alemão, francês e italiano. Excetuando-se algumas obras de caráter tipicamente folclórico como as Rapsódias Húngaras, a maior parte de suas composições pertence ao estilo romântico francês. Não há dúvida que no plano técnico do teclado, foi ele beneficiado pelas sugestões das obras de Bach e das últimas sonatas de Beethoven, mas no conjunto, sua concepção musical é mais próxima do gênio livre francês que do sistematismo clássico que reside no espirito das obras alemãs, mesmo as mais românticas.

As inovações levadas a cabo por Liszt no campo harmônico são de uma tal complexidade, que não podem ser examinadas de forma superficial sem comprometer a real importância que ocupam dentro de sua linguagem musical O mesmo diz respeito à sua produção tardia, especialmente aquela empreendida após 1871, que significa uma ruptura brusca com o estilo e forma utilizados pelo compositor até então. As ousadias harmônicas e dialéticas do velho Liszt só poderão ser abordadas em extenso trabalho, devido às vari¬adas implicações de fatores a serem considerados.

Amaral Vieira
especial para a Folha de São Paulo



Esse texto foi publicado quinta-feira, dezembro 16th, 2010 às 4:12 PM na seção Sem categoria. Você pode acompanhar todos os comentários através do feed RSS 2.0. Você também pode comentar, ou criar um link para cá em seu site.

9 comentários to “Artigo de Amaral Vieira sobre Liszt”

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