Ele, violinista chileno e ela, pianista pernambucana se conheceram em um navio a caminho da Alemanha quando estavam para estudar em uma escola de música. Pouco tempo depois se casaram e estão juntos há 50 anos por amor à música e ajudando a difundir a música de concerto pelo mundo.

O casal Rafael Garcia e Ana Lucia Altino celebra bodas de ouro neste dia 29 de julho. Mais do que simbólica pela comemoração da passagem dos anos, a data coincide com o último final de semana do festival Virtuosi de Gravatá, que o casal organiza desde 2009 na cidade do agreste pernambucano. Em entrevista, Ana Lúcia fala como se conheceram e como é trabalhar com música em família.


Poderia nos contar a história de como se conheceram e desenvolveram um laço musical?

Nosso encontro foi muito especial. Rafael ganhou a bolsa de estudos do DAAD do governo alemão pelo Chile e eu pelo Brasil. Naquele ano, 51 anos atrás, os estudantes da América Latina foram de navio para Genova e de lá de trem para Alemanha. Rafael veio de avião até Buenos Aires onde pegou o navio italiano Augustus. Eu entrei no Rio de Janeiro e fomos apresentados por um medico de Mossoró que também estava indo para a Alemanha como bolsista. Durante a viagem namoramos, tocamos piano juntos – por acaso ontem aqui em Gravatá o violinista Yannos Margaziotis tocou a Sonata Primavera de Beethoven – exatamente a peça que nós tocamos pela primeira vez. Chegamos a Gênova onde passeamos bastante e dali fomos para a Alemanha. Fomos estudar na mesma cidade, em Detmold e lá casamos em julho de 1967.

Quais os maiores momentos musicais desses últimos 50 anos?
Nossa, é dificil. A gente poderia escrever um livro sobre isso. Posso citar alguns mais importantes. Primeiro, depois que voltamos para o Brasil, fomos para São Paulo. Assumimos as funções de pianista e Rafael de assistente de Spalla e depois Spalla da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo com o Maestro Eleazar de Carvalho. Foi uma época linda de realizações musicais. Cito também a implantação do movimento musical na Paraíba onde ficamos por nove anos, criando a Orquestra Sinfônica do Estado e o Departamento de Música da UFPB, entre outras coisas. Importante para nossa família foi a ida para os Estados Unidos. Foram quase nove anos de muita musica entre a Boston University e a New England Conservatory. E creio que o mais importnte foi a criação do VIRTUOSI que não preciso mais nem falar…

Como foi criar os 6 filhos e tinha a preocupação deles serem músicos também?
Criar um ou seis filhos não acredito que faça muita diferença. Até talvez ajude! Nunca tivemos a preocupação de fazer dos filhos músicos também. Isso veio naturalmente, principalmente para os três mais velhos (são seis!). Na época da Paraíba, nós vivíamos no Departamento de Música, o que levou facilmente a que os mais velhos se dedicassem à música. Eles viviam lá com a gente, participavam de todos os concertos nem que fossem inspirados pelo jantar depois do concerto, mas iam. Rafael (o mis velho) estudava violino, Leonardo estudava cello e Marcelo, trompete. Ao irmos para os Estados Unidos, as coisas ficaram mais difíceis. Não tínhamos a mesma facilidade e por conta disso os outros três mais jovens não foram tão incentivados a estudar. Como dizia minha mãe, a gente teve três filhos e três netos!

Qual é o segredo para um casamento tão longo com emoção?
Não acredito que seja porque os dois fazemos música. Isso nos emociona, mas também leva a muitas discussões. Eu acredito no amor e na tolerância. Nem sempre é fácil, mas querendo se consegue. Passamos por muita coisa nesses 50 anos. Alegrias e tristezas fizeram parte de nossas vidas. Mas o amor venceu e hoje somos um casal feliz, acredito eu, com seis filhos maravilhosos e 12 netos queridos. Mas segredo mesmo, não tem!